Dengue e os limites de uso do Paracetamol

untitledO uso de paracetamol na dengue é um consenso tanto nos protocolos de manejo clínico quanto entre a população.

Uma busca rápida no PubMed  (site de literatura científica) pode retornar em segundos quase 3 mil artigos que contem os termos: acetaminophen toxicity and liver injury ou, traduzindo, toxicidade do acetaminophen (paracetamol) e lesão de fígado.

Um estudo sobre a estimativa de overdose de paracetamol nos Estados Unidos (aqui)  mostrou a ocorrência de cerca de 56.000 atendimentos de emergência em decorrência de superdosagem de paracetamol gerando ainda 26.000 hospitalizações e 458 mortes. Parece algo que merece reflexão.

Diante disso, causa certa estranheza que uma droga que ofereça riscos para a função hepática (hepatotóxica) seja indicada para tratar uma doença cujo agente transmissor, o vírus da Dengue, por ser um flavivírus, também tem potencial de causar lesão no fígado.

A toxicidade do paracetamol em pessoas saudáveis é dose dependente. Ou seja, até certa dose, em pessoas sem comprometimento hepático, o paracetamol não causa danos, mas quando o limite é ultrapassado pode sim ser fatal.

Qual é esse limite?

O primeiro caso de morte associada a hepatotoxicidade do paracetamol foi relatado por Davidson e Eastham no artigo Acute liver necrosis following overdose of paracetamol , traduzindo, necrose hepática aguda após a overdose de paracetamol. Após este primeiro relato, vários outros foram feitos e países como os Estados Unidos passaram a colocar nas embalagens advertências expressas sobre os riscos do uso de paracetamol com bebida alcoólica, problemas hepáticos e os riscos da superdosagem.

Em entrevista ao UOL News (aqui), o toxicologista Anthony Wong, do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas, deu uma aula sobre o que se deve e o que não se deve fazer no uso do paracetamol, admitindo não saber por que o remédio ainda continua no mercado afirmando que a dosagem perigosa varia de pessoa para pessoa.

“A quantidade de comprimidos é altamente variável. Só aqui no Brasil tem comprimido de 750mg. Na Inglaterra só tem de 500mg e de 360mg”. Ainda sobre a dosagem, lembrou: “há pessoas que já tiveram falência hepática tomando 8 comprimidos de 500mg”.

De olho na dose

A dose máxima por dia de paracetamol em pacientes sem comprometimento hepático e sem história de consumo abusivo de álcool é de 4.000 mg em 24 horas. Lembrar que no Brasil temos disponíveis comprimidos de até 750 mg de paracetamol e que a tomada de número maior do que 6 comprimidos ao dia já representa dose acima do recomendado expondo o paciente a risco de lesão hepática.

Pode ser usado na dengue?

O Ministério da Saúde afirma que sim, dentro da dose recomendada. Existem médicos que se posicionam veementemente contra essa utilização exatamente por conta do comprometimento hepático que é desencadeado pelo vírus da dengue. Entretanto, mesmo nesse contexto, a droga ainda é liberada para venda sem receita e indicada formalmente para o uso em casos de dengue.

Minha opinião é que a população precisa ser orientada sobre os riscos da superdosagem, do perigo do uso em pacientes hepatopatas e dos riscos da associação com álcool. Esse é um conhecimento restrito aos profissionais de saúde, principalmente médicos e farmacêuticos, o que coloca em risco a vida dos menos informados. Existe talvez uma certa ingenuidade em enxergar o paracetamol como uma droga totalmente inofensiva.

Tome cuidado

O FDA (U.S. Food and Drug Administration) – orgão americano de controle de medicamentos e alimentos semelhante a ANVISA aqui no Brasil – faz as seguintes orientações quanto ao uso do paracetamol:

  1. Não associar medicamentos que contenham paracetamol em sua fórmula;
  2. Ler cuidadosamente as bulas antes de iniciar qualquer tratamento;
  3. Não ingerir bebidas alcoólicas quando em uso de paracetamol;
  4. Suspender a medicação e procurar atendimento médico caso apresente reações adversas a droga;
  5. Jamais ultrapassar o limite diário de 4.000 mg ao dia.
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Mari Liborio, enfermeira, mestre em Ciências da Saúde e especialista em Controle de Infecção.