É o fim dos antibióticos como conhecemos?

stop-bacteriaJá vivemos um tempo, não  muito distante diga-se de passagem, onde para tratar uma infecção de garganta era possível apenas ir a farmácia e pedir aquele antibiótico que em algum outro momento da vida foi útil para curar um problema parecido.  Hoje isso parece até surreal e um tanto absurdo, mas era exatamente o que acontecia antes da RDC 20 de 2011(aqui). Essa regulamentação obrigou as farmácias a venderem antibióticos APENAS mediante receita médica. Pode parecer uma exigência sem sentido para alguns mais desavisados, mas é uma medida indispensável e parte de um esforço maior para manter “vivos” e “funcionantes” os antibióticos disponíveis hoje no mercado.

Por muito tempo associamos os antibióticos a algo capaz de proteger e curar sem quase nenhum prejuízo.  Isso porque ao longo da história, a humanidade tornou-se vítima de pandemias hoje perfeitamente curáveis na grande maioria das vezes, a exemplo de cólera, peste e tuberculose. Mas estávamos enganados. Os mesmos antibióticos que por décadas nos impediram de sucumbir a infecções bacterianas hoje podem estar com seus dias contados.

Foi  em 1928 que o britânico Alexander Fleming  observou os efeitos antibióticos de uma substância elaborada por um fungo, mais tarde conhecida por penicilina. O entusiasmo foi tão grande, mas tão grande, que a penicilina foi logo apelidada de “droga milagrosa”.

Não paramos na descoberta de Fleming pois a ciência avançou em passos largos com drogas como a estreptomicina, tetraciclina, quinolonas, antifúngicos, etc, etc e etc. Achamos então que morrer de infecção era coisa do passado. Só que não.

“A ciência aperfeiçoa a ratoeira

e a natureza adestra o rato”

Tudo excelente e eficaz, não fosse o uso indiscriminado e a incrível habilidade que os microrganismos possuem de desenvolver estratégias para sobreviver.

As “superbactérias”

O que transforma uma bactéria comum em uma “superbactéria”? Para simplificar, alguns microrganismos podem carregar genes que dão a elas o “superpoder” de sobreviver em meio a um ataque de antibiótico. E não para por aí, as bactérias são capazes de transmitir esses genes de resistência para suas colegas, formando um exercito de superbugs.

superbugs

E se você acha que resistência aos antibióticos é um problema da comunidade científica e que não lhe diz respeito, pense melhor. Bactérias multirresistentes que antes só eram encontradas em pacientes hospitalizados hoje são facilmente vistas em infecções que chamamos de comunitárias, ou seja, aquelas que ocorrem em pacientes FORA do hospital.

Haverá um dia em que os antibióticos não terão mais efeito?

 “E por que não hei eu de imitar os grandes homens? Conta-se que Xerxes, contemplando um dia o seu imenso exército, chorou com a ideia de que, ao cabo de um século, toda aquela gente estaria morta. Também eu contemplo, e choro, por efeito de igual ideia; o exército é que é outro. Não são os homens que me levam à melancolia persa, mas os remédios que os curam. Mirando os remédios vivos e eficazes, faço esta pergunta a mim mesmo: Por que é que os remédios morrem?”

Crônica de Machado de Assis

Nessa crônica de Machado de Assis o vemos com tristeza contemplar a possível morte dos medicamentos. Sinto muito, mas esse dia chegou. Já existem bactérias resistentes a todos os medicamentos disponíveis no mercado.

Já falamos sobre isso aqui e aqui mas vale reforçar: prevenir a infecção continua sendo o melhor, mais barato e mais atual remédio!

 


Mari Liborio, enfermeira, mestre em Ciências da Saúde e especialista em Controle de Infecção.