Eu, você e a pior epidemia de Ebola já registrada

1Desde que a epidemia começou, o Ebola se tornou a última grande fobia e o maior pesadelo de boa parte da população com acesso a internet e telejornais. E dá para entender.  O último relatório da OMS de 10 de outubro  mostra  que até o momento houve 8399 casos confirmados, suspeitos e prováveis em 7 países:  Guine, Libéria, Serra Leoa – os 3 considerados os mais severamente afetados – e ainda Nigéria, Senegal, Espanha e Estados Unidos da América. Destes, 4033 foram a óbito. São dados que, naturalmente, assustam.

A exposição de profissionais de saúde também é algo preocupante. Até o dia 8 de outubro 416 profissionais foram contaminados de acordo com relatório. Claro que nos países severamente afetados os profissionais são expostos não apenas em razão do trabalho, mas também por residirem e conviverem com uma população doente.

Há razão para tanto medo?

O Ebola é uma doença tenebrosa, capaz de matar mais da metade das pessoas infectadas. Mas, ao contrário da dengue, cujo vetor é um inseto, ou ainda da gripe que pode ser transmitida pelo ar, o Ebola necessita de contato direto com fluídos corpóreos ou superfícies contaminadas por estes. Só por essa razão, já pode ser considerada uma doença de difícil propagação em locais que reúnam condições básicas de higiene, saneamento e controle – exatamente o que inexiste nos países africanos severamente afetados.

Particularmente, por razões que incluem uma infraestrutura de saúde extremamente precária, métodos bastante peculiares de lidar com pessoas mortas e um medo tremendo que impede pessoas doentes de procurar assistência médica, a África tem sido, ao longo deste e de outros surtos de Ebola, tudo o que o vírus precisa para infectar pessoas. Mas não é esse o nosso caso.

Ainda que a situação mereça e muito a nossa atenção, o Ebola não é o único problema de saúde pública da África. A malária, a tuberculose e o HIV não param de fazer vítimas. Aliás, lá e aqui. A diferença é que para o Ebola não há tratamento específico e a mortalidade pode chegar a 90%.

Como enfermeira de controle de infecção já passei pela epidemia de SARS em 2003, uma sequência quase anual de epidemias de dengue e ainda um surto de H1N1 em 2009 que nos deixou de cabelos em pé. Todos eles sempre acompanhados de muito medo, de muita desinformação e as vezes, de pouquíssima epidemiologia.

Potencial epidêmico

Falando em epidemiologia, existe um conceito muito interessante – o potencial epidêmico. O termo pode ser traduzido por um cálculo chamado de número reprodutivo básico (Ro). Trocando em miúdos o Ro de uma doença contagiosa é o número médio de pessoas que um indivíduo doente pode contaminar na ausência de qualquer controle.

Ou seja, uma estimativa teórica do que acontece quando um indivíduo infectado é colocado numa população inteiramente susceptível. Por exemplo, nós brasileiros em relação ao Ebola.

Para ilustrar, o Ro  para o Ebola é igual a 2 (1 pessoa doente pode passar em média a doença para 2 pessoas susceptíveis) enquanto que o Ro do sarampo é 18 e da malária é igual a 50 .

Mas por que então na África a epidemia está nesta proporção? Pense que sem controle, começamos com  1 caso, depois mais 2, depois mais 4 e por aí vai… O cenário na África é exatamente esse. Mas muito, muito provavelmente, não será o cenário que veremos aqui.

Quem é suspeito?

Todo paciente que tenha viajado para Libéria, Guiné e Serra Leoa em um período de até 21 dias e que apresente febre é definido como caso suspeito de Ebola. Simples? Em termos.

O desafio dos serviços de saúde é captar ativamente esse paciente antes que ele permaneça nas filas de atendimento e nas recepções lotadas dos pronto socorros.

Uma estratégia adotada por muitos hospitais foi a colocação de cartazes bilíngues oferecendo atendimento preferencial para os pacientes que viajaram para as áreas afetadas pelo Ebola no período indicado e que estejam com febre. A comunicação orienta expressamente que o paciente não aguarde em filas e não permaneça na recepção.

Ao se identificar como viajante, um fluxo de atendimento para casos suspeitos de Ebola é deflagrado e o paciente colocado em isolamento até que o transporte especial do estado transfira o caso para o hospital de referência.

Todas as pessoas que o paciente suspeito entrou em contato após o início dos sintomas serão monitoradas, algo que no Brasil já é realizado com outros agravos transmissíveis. E sobre isso, o CDC é categórico ao afirmar que “até mesmo 1 contato perdido pode fazer com que a epidemia não seja interrompida”.

Como o vírus pode ser transmitido

A transmissão ocorre somente através de contato direto com fluidos corpóreos que inclui sangue, urina, fezes, vômito, suor, lágrima, muco, saliva e esperma.

É importante lembrar que o Ebola não pode ser transmitido na ausência de sintomas. Ou seja, quando a febre começa, começa também a transmissão. O segredo do sucesso no controle do Ebola é diagnosticar rapidamente os casos suspeitos, procedendo as medidas de isolamento recomendadas, rastreando os contatos e interrompendo a cadeia de transmissão.

Risco para os profissionais de saúde

Chamou muita atenção o que ocorreu com o caso de Ebola diagnosticado em Dallas, o primeiro fora da Africa. A enfermeira Nina Pham, de 26 anos, plantonista da UTI onde o paciente Eric Duncan estava internado antes de falecer de Ebola, contraiu a doença durante a os procedimentos assistenciais que prestou.

O caso é particularmente perturbador já que, segundo a própria enfermeira, ela adotou todas as medidas de proteção indicadas. MAS ENTÃO, COMO É POSSÍVEL?

Falamos muito sobre segurança do paciente. Aqui no Brasil e muito mais ainda nos Estados Unidos. Falamos principalmente sobre todas as coisas que ainda precisamos melhorar em termos de assistência segura. Procedimentos que conferem segurança ao paciente, prevenindo desde infecção hospitalar até quedas do leito, mas não somente,  incluem ainda medidas que protegem os profissionais. E se falhamos em garantir a segurança do paciente é possível que também não tenhamos a clareza necessária para nos manter seguros.

Dr Tom Frieden, diretor do CDC, declarou que ” O Ebola é desconhecido , é assustador e acertar é muito, muito importante”. Em resposta ao caso da enfermeira Nina Pham, o CDC enviou especialistas em controle de infecção para o hospital a fim de capacita-los quanto às medidas de prevenção, em especial o manejo de fluídos e a utilização adequada dos EPIs (equipamentos de proteção individual).

É possível que o Ebola venha expor muitas de nossas fraquezas enquanto prestadores de assistência, trazendo a tona o quão insegura ela pode ser se não observadas todas as medidas preconizadas.

 

 

Mari Liborio, enfermeira, mestre em Ciências da Saúde e especialista em Controle de Infecção.

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