Unhas feitas – O perigo onde menos se espera?

apply-two-coats-of-your-chosen-polish-225x300Sempre brinco que percebo que estou trabalhando demais quando fazer as unhas no salão de beleza vira um mega evento. Assim como eu, milhares de mulheres procuram manicures para cuidar de suas unhas, mas este procedimento estético pode trazer riscos tanto a clientes quantos aos profissionais se não forem observados alguns cuidados.

Culturalmente nós, brasileiras, temos por hábito retirar as cutículas. Isso não é um procedimento visto em todo mundo, mas nós curtimos, fazer o que? De um ano pra cá, influenciada pelo blog Unha Bonita  passei a hidrata-las ao invés de corta-las. Clica aqui que a autora explica tudo direitinho e pode até te convencer também. Os argumentos de defesa dessa prática são super coerentes e o resultado desse cuidado supera esteticamente o de retirar as cutículas. Incrível.

Mas enfim, se você não abre mão de um alicate bem amolado precisará dessas dicas pra manter a saúde.

Em primeiro lugar, por que a preocupação?

Fazer as unhas envolve procedimentos potencialmente perigosos que podem resultar em infecções fúngicas, bacterianas e virais.

Começando pelas infecções fúngicas da unha (as onicomicoses), ainda que não sejam fatais, quem já precisou tratar por quase um ano um dedinho adoecido sabe bem a dor de cabeça que é. Os medicamentos tópicos são caríssimos, o tratamento é lento, o sucesso não é garantido e pode ser que você precise recorrer a drogas orais se nada der certo. Tudo isso por um funguinho de palito, alicate e lixa de manicure? É, pois é. Esses fungos, chamados dermatófitos, se alimentam da queratina, a substância responsável pela rigidez  das unhas, por isso elas amolecem e descolam.

Outro problema frequente são as infecções bacterianas, chamadas paroníqueas. Elas se manifestam em consequência da introdução de microrganismos através da pele lesionada pelo alicate de cutícula. Os sintomas incluem dor e pequenas coleções de pus.

Mas o maior perigo é o risco de contrair hepatite B e C. Além do alicate de cutícula, o palito de madeira e as espátulas podem ser um meio de contaminação já que o vírus resiste semanas em instrumentos não submetidos a reprocessamento. A transmissão se dá por meio de pequenos ferimentos e através do contato com uma quantidade de sangue realmente pequena é possível infectar-se.

Um estudo feito pela enfermeira Andréia Cristine Deneluz Schunck de Oliveira, do Instituto Emílio Ribas, (aqui) mostrou que não são apenas as clientes que estão em risco, as manicures também. Ela constatou  que uma em cada dez manicures da cidade de São Paulo é portadora do vírus da hepatite B ou C. E o estudo não para por aí. Dados mais alarmantes mostram a falta de conhecimento sobre as boas práticas de limpeza, desinfecção e esterilização dos materiais e do risco ocupacional que a prática envolve.

Das profissionais entrevistadas, 74% afirmaram que sempre lavam as mãos antes e depois de fazer mão e pé das clientes, porém foi constatado que nenhuma delas efetivamente adotou esse procedimento enquanto a pesquisadora permaneceu no salão observando o atendimento. Das entrevistadas, 20% disse usar luvas no trabalho, mas só 5% utilizou o equipamento de proteção na presença da observadora.

Diante disso, nem pense em terceirizar o cuidado que você deve ter com a sua saúde para a sua manicure ou a dona do salão. Essa responsabilidade nos pertence! Faça um kit manicure caprichado e de qualidade e leve-o em todas as vezes que for fazer as unhas das mãos e pés.

Seu kit deve conter:

  • toalha
  • alicate
  • espátula
  • lixa
  • palito
  • base e esmalte

Além disso, observe bem o estabelecimento no que diz respeito a higiene, a organização e a preocupação com a saúde e bem estar das clientes. Se não estiver confiante, não faça as unhas. Mais do que a beleza é a sua saúde que está em questão.

E se você é manicure:

Aprenda o processo correto de esterilização e de como manipular o equipamento que o salão dispõe. Nenhum material pode ser esterilizado se antes não tiver sido limpo e seco. Pular essa etapa compromete o resultado da técnica.

  • Se utilizar estufa: Temperatura de 160°C por duas horas. E depois do procedimento de esterilização iniciado, não se deve interromper para adicionar ou retirar material já que a eficiência tem relação com a variável tempo de exposição.
  • Se utilizar autoclave: pode variar de acordo com o fabricante. A média é 135°C por meia hora.
  • Utilize luvas descartáveis e higienize as mãos entre cada procedimento.
  • Vacine-se contra a hepatite B.
  • Não utilize em você nenhum material previamente utilizado por outra pessoa.

Fazer as unhas é uma delícia, um momento de cuidado que deve valer a pena em todos os sentidos, principalmente para a nossa saúde.

 

Mari Liborio, enfermeira, mestre em Ciências da Saúde e especialista em Controle de Infecção.